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A causa histórica do Bitcoin

Você já parou pra pensar a fundo sobre o que é o dinheiro? Apesar de estar tão presente no nosso dia-a-dia, a maioria das pessoas nunca fez essa reflexão.

Eu gosto de definir o dinheiro como uma representação da dívida que a sociedade tem com a gente. Ele representa o valor que já geramos para outras pessoas, mas que ainda não nos foi retribuído.

No campo da biologia evolutiva, existe um comportamento chamado de altruísmo recíproco, quando um organismo age de modo temporariamente prejudicial para si em benefício de outro, com a expectativa que este outro organismo lhe retribua futuramente. Esse comportamento pode ser observado por exemplo em grupos de macacos, que tendem a ajudar mais os outros membros que já cataram seus carrapatos, mesmo que não possuam parentesco próximo.

Esse mecanismo biológico foi suficiente para coordenar a colaboração humana pela maior parte da sua existência, por cerca de 200 mil anos, visto que vivíamos em tribos de poucas dezenas de indivíduos e apenas a nossa memória era capaz de manter esse sistema de dívidas sem a necessidade de uma representação física.

No entanto, diferente de outros animais, nós desenvolvemos uma tecnologia que permite a colaboração entre grupos cada vez maiores e espalhados por regiões geográficas cada vez mais amplas. Essa tecnologia é o dinheiro. O biólogo e escritor Richard Dawkins diz em seu livro O Gene Egoísta que “o dinheiro é um símbolo formal de altruísmo recíproco adiado”.

As primeiras formas de dinheiro eram bastante rudimentares, baseadas em itens colecionáveis como conchas, contas de vidro e pontas de flecha para auxiliar nossa memória, da mesma forma que crianças usam grãos de feijão para marcar o placar em jogos. Esses itens, no entanto, tinham algumas propriedades em comum. Primeiro, eles eram escassos, seja pela baixa disponibilidade natural ou pelo esforço de produzi-los. Deste modo, era preferível obtê-los através da troca por outros produtos ou serviços do que extraí-los ou produzi-los diretamente. Eles também eram duráveis, o que permitia que seu valor se mantivesse no tempo, portáteis, para serem usados em uma região ampla, assim como divisíveis e fungíveis, para funcionarem como boas unidades de conta para medir o valor relativo entre diversos produtos.

O problema do uso destes itens colecionáveis como dinheiro é que, com o avanço da tecnologia, foi se tornando cada vez mais fácil produzi-los em grande escala a baixo custo, acabando com sua escassez e destruindo seu valor de troca no mercado. Por isso, acabaram sendo substituídos por mercadorias (commodities), como o sal, de onde originou a palavra "salário", mas especialmente as metálicas, como o ferro, o cobre a prata e o ouro. Inicialmente, cada sociedade adotou como moeda a mercadoria disponível em sua região geográfica que tivesse as melhores propriedades monetárias. Com o avanço dos meios de transporte, sociedades distantes passaram a também realizar trocas entre si, colocando suas moedas em concorrência, convergindo assim para aquela que tivesse as melhores propriedades. Após alguns séculos desta dinâmica, a mercadoria vencedora na maior parte do mundo foi o ouro.

Ainda que o ouro possuísse excelentes propriedades monetárias, ele sofria de um grande problema prático, seu alto custo de transação. Por um lado, em transações pequenas, havia a dificuldade em se verificar sua pureza a todo momento, enquanto em transações maiores entre regiões distantes, cada vez mais comuns com as navegações, havia a dificuldade de transportá-lo em segurança.

Esse problema levou as pessoas a depositarem seu ouro em instituições de boa reputação, que verificavam seu peso e pureza uma única vez e então emitiam recibos em papel que davam direito de sua retirada posterior. Desse modo, estes recibos podiam ser utilizados como moeda nas transações pequenas sem o custo de se verificar o ouro a todo momento.

Além de emitir estes recibos, estas instituições também podiam controlar os saldos dos clientes em seus livros razão, de modo que pudessem transferir valores de uma conta para a outra bastando receber a informação de que determinada transação foi realizada, sem os custos, riscos e tempo de transporte do ouro físico no comércio internacional.

Esta inovação, apesar de reduzir drasticamente o custo de transação do ouro, centralizou o sistema monetário em algumas poucas instituições. As pessoas deixaram de ter a posse de seu dinheiro e passaram a confiar nestas instituições para que seu direito de propriedade sobre ele fosse respeitado.

Não demorou para que esta confiança fosse quebrada. Essas instituições perceberam que as pessoas raramente sacavam o ouro e logo identificaram uma oportunidade de negócios: emprestar o ouro dos clientes para terceiros em troca do pagamento de juros.

Estamos tão acostumados com o sistema financeiro atual, que para a maioria de nós isso parece normal, mas imagine uma situação análoga, na qual o dono do estacionamento onde você deixou seu carro o alugasse durante seu expediente por saber que você provavelmente não iria buscá-lo. Isso não seria considerado uma fraude?

Além disso, quem pegava esse dinheiro emprestado também não queria o ouro físico, mas sim seus recibos, por serem mais aceitos no mercado. Isso incentivou a impressão de muito mais recibos do que havia em ouro nos depósitos dessas instituições. O que por definição deveria ser chamado de falsificação de moeda, é conhecido hoje como "sistema de reserva fracionária".

Caso um percentual suficientemente elevado de clientes quisesse sacar seu ouro ao mesmo tempo, no que hoje chamamos de uma "corrida aos bancos", não haveria metal para todos e os últimos perderiam todo seu patrimônio. Além disso, quando há uma quantidade de recibos em circulação superior ao ouro depositado, este ouro aparenta ser menos escasso e perde valor, roubando silenciosamente o poder de compra de todas as pessoas em posse destes recibos.

O Estado, que em teoria deveria usar seu poder de polícia para acabar com esse tipo de fraude, reconheceu o poder que poderia ter em suas mãos e decidiu se tornar o chefe da quadrilha ao invés de combatê-la. Para isso, foram criados os bancos centrais e as regulações bancárias que controlam as atividades das instituições privadas que custodiavam, emprestavam e emitiam dinheiro.

Assim, ficou muito mais fácil do Estado se financiar, se endividando de forma ilimitada e a juros artificialmente baixos. A emissão de moeda não cria riqueza, apenas a transfere através da inflação, mas é uma transferência menos visível e impopular do que o aumento da cobrança direta de impostos. A principal consequência disso foi a escala crescente das guerras após o surgimento dos bancos centrais.

Ainda que este sistema monetário baseado na falsificação de recibos de ouro tenha sido bem sucedido do ponto de vista do Estado, financiando duas grandes guerras mundiais, ele claramente não se sustenta no longo prazo. Após diversas medidas que buscaram prolongar sua vida, este sistema foi oficialmente abandonado em 1971, quando o presidente Nixon dos Estados Unidos anunciou que daria um calote no mundo ao cancelar unilateralmente a convertibilidade do dólar detido por bancos centrais estrangeiros em ouro. Neste momento, cerca de 50 anos atrás, nasceu o sistema monetário atual, baseado em moedas fiduciárias nacionais, cujo valor depende de seu curso forçado por lei e do grau de (ir)responsabilidade de cada Estado em limitar a expansão de sua base monetária.

Desde então, os Estados seguem abusando de seu privilégio de emissão de moeda para atingir objetivos políticos, criando distorções nos mercados, ciclos de bolhas e crises de crédito e resgate aos bancos que se tornam insolventes nestas crises. Foi nesse contexto que o Bitcoin foi criado. Durante a crise financeira de 2008, uma pessoa usando o pseudônimo Satoshi Nakamoto publicou um paper descrevendo um novo dinheiro digital descentralizado. Ele próprio implementou esse projeto em código aberto e a rede do Bitcoin começou a funcionar em janeiro de 2009.

Diferente das moedas fiduciárias, a taxa de emissão de novos bitcoins é fixa e conhecida por todos os usuários. São criados novos bitcoins a cada 10 minutos, sendo que a cada 4 anos a quantidade emitida é reduzida pela metade até cessar por completo em 2140. Nesse período serão emitidos um total de 21 milhões de bitcoins, dos quais já foram emitidos mais de 19 milhões em 2022. Os novos bitcoins são emitidos como forma de remuneração para os mineradores, máquinas que validam e confirmam as transações, na proporção do poder computacional que cada uma contribui para a segurança da rede. Com essa política monetária justa, transparente e imutável, o bitcoin não pode ser usado como ferramenta política para transferência de riqueza, financiamento de guerras e resgate aos bancos.

Além de escasso, o bitcoin também é divisível, podendo ser fracionado em até 100 milhões de partes (chamadas de satoshis ou sats), para ser utilizado até mesmo nas menores transações. Ele também é durável, visto que é registrado por milhares de computadores em todo mundo e que as chaves criptográficas utilizadas para movimentá-lo podem ser copiadas em backups pelo seu titular. Por fim, ele é portável, podendo ser transferido para qualquer lugar do mundo quase que instantaneamente e com baixíssimo custo, independente do valor transacionado. Dessa forma, o Bitcoin combina e aprimora as melhores características monetárias do ouro e do dinheiro fiduciário, sendo simultaneamente escasso e portável, sem depender de intermediários que possam corrompê-lo.

O problema que resta é a sua volatilidade de preço, muito alta comparada às principais moedas globais, impedindo que seja mais amplamente usado pela população em geral. Esse problema é natural de ativos que possuem pouca liquidez no mercado, sendo incapazes de absorver flutuações de oferta e demanda com pouco impacto de preço. No entanto, observa-se que a volatilidade do Bitcoin já vem diminuindo desde sua criação conforme sua adoção cresce, se tornando menos volátil do que as moedas de diversos países em desenvolvimento, onde já funciona como uma importante forma de poupança para suas populações.

Algumas pessoas ainda questionam de onde vem o valor do bitcoin, dizendo que ele não tem lastro e nem valor intrínseco. Realmente o bitcoin não tem lastro, mas as moedas fiduciárias há muito tempo também não tem e mesmo assim continuam tendo valor. O mesmo vale para a questão do valor intrínseco, uma nota de 100 dólares é apenas um pedaço colorido de papel sem grande utilidade direta que justifique seu valor. O valor do dinheiro não é intrínseco, ele emerge de sua utilidade social, pela sua capacidade de preservar valor no tempo, de ser usado como meio de troca no comércio e de medir valores relativos entre mercadorias como uma unidade de conta.

Em um mundo no qual todos os bancos centrais têm metas de inflação positiva, existe uma grande demanda por ativos que possam preservar valor ao longo do tempo. Os títulos de dívida pública, especialmente americana, foram as grandes reservas de valor das últimas décadas, mas atualmente entregam em sua maioria juros reais negativos e até mesmo juros nominais negativos como no Japão e Europa.

Nesse ambiente, se torna impossível poupar e somos todos obrigados a nos tornar investidores. Hoje poupança e investimento são usados como sinônimos, mas investir envolve tomada de risco e coloca as pessoas em situação muito vulnerável em momentos de crise. A consequência disso foi a grande expansão do mercado financeiro e o uso de ações, imóveis e arte como reservas de valor, incorporando um alto prêmio monetário em seus preços.

O bitcoin, cujo valor total de mercado hoje é de cerca de $360bi de dólares, se continuar sendo adotado como moeda, tem potencial de absorver uma parte significativa dos $90tri em moedas globais, $90tri em títulos de dívida pública, $40tri em títulos de dívida corporativa e $10tri em ouro, que já somam $230tri sem considerar o prêmio monetário das ações e imóveis, que é mais difícil de se estimar mas que no mínimo dobraria esse valor.

Se isso acontecer, com certeza o mundo será bastante diferente. Ao perder sua capacidade quase ilimitada de endividamento e parte de sua capacidade de tributação, os Estados precisarão reduzir suas estruturas e assim também seu escopo de atuação. Se entrarem em guerra, não conseguirão sustentá-la por muito tempo. As pessoas também seriam incentivadas a poupar e pensar em mais longo prazo, visto que seu dinheiro pararia de derreter em seus bolsos. Finalmente poderemos sentir os benefícios deflacionários do avanço tecnológico, com a redução do nosso custo de vida conforme aumentamos nossa produtividade como sociedade.

Você está preparado para viver sob este novo sistema monetário?

A causa histórica do Bitcoin
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